Bota Rota é o nome de um pequeno grupo de trekking que desde 2001 percorre vários espaços naturais só para contemplar o que melhor nos dá a Mãe-Natureza: os animais, as plantas, as paisagens, o silêncio e a camaradagem (aproveitamos e damos algum descanso às nossas cara-metade).
Para além da sensibilização para a conservação do meio ambiente e da biodiversidade, este espaço pretende ser uma exteriorização desses momentos vividos pelos elementos que compõem o Bota Rota.
Aqui, podem ler, contemplar e rir das nossas pequenas aventuras, através dos textos e das fotos que, a muito custo, trazemos para casa, pois após grandes distâncias percorridas, até as fotos pesam!
Como ainda não somos profissionais, as nossas actividades são poucas, pequenas e vagarosas. Portanto, não pensem que estão num blog de grandes montanhistas. Apesar de termos alguma experiência, alguns com mais de 25 anos, o objectivo do Bota Rota é viver, saborear, fotografar, conhecer e não ser um papa-quilómetros!
Espero que, neste espaço, consigamos transmitir toda a nossa diversão em campo e que se divirtam com as nossas vivências, que fazem parte desta curta vida, neste maravilhoso planeta a que chamamos Terra.
Muito se tem falado, discutido e especulado, sobre a conservação das nossas áreas naturais, a sua recente e polémica legislação, os incêndios e as pessoas que, de alguma forma, praticam actividades nesses espaços únicos.
A primeira impressão que tenho é que as diversas instituições trabalham isoladas entre si, muito provavelmente de costas viradas.
Os nossos governantes não têm investido o suficiente nestas áreas. Longe vão os tempos em que se viam guardas florestais sempre em cima dos acontecimentos, cantoneiros permanente a conservar os estradões, etc., etc. São públicas as notícias sobre automóveis do Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB) sem dinheiro para as mudanças de óleo, vigilantes sem verba para exercer as suas funções e atrasos nas indemnizações aos pastores, entre outras coisas. Está visto que isto de conservação das áreas naturais não é coisa de primeira necessidade para o Governo. E como o Estado não quer gastar dinheiro, proíbe! Cria obstáculos de maneira a limitar ao máximo, as visitas aos espaços naturais.
Está provado que, o dinheiro poupado nos vigilantes foi mais que gasto nos meios de combate ao incêndio. Com as agravantes de se gastar mais dinheiro, de se perderem vidas e biodiversidade e de enegrecerem os nossos mais belos espaços naturais.
Aos montanheiros e similares, são lhes condicionadas - para não dizer vedadas - as actividades, em vez de aproveitarem a força voluntária destes elementos que palmilham as nossas serras. Inseridos em instituições, grupos ou individualmente, esta força, que de uma maneira geral, rege-se por normas de ética ambiental, poderia ser uma mais-valia ao serviço dos parques e reservas de Portugal.
Certo dia, no final de uma caminhada pela Serra do Gerês, apanhamos boleia num reboque de um tractor de um apicultor. Durante a conversa, o simpático senhor disse-nos que era uma alegria ver caminheiros pela serra pois, assim havia menos probabilidades de incêndio.
Ora, devidamente orientadas, estas pessoas, grupos ou instituições, poderiam estar inscritas no ICNB ou outra instituição similar e participariam as suas actividades (identificação, data, percurso e número de pessoas) a esta organização. Falo de participação e não um pedido de autorização. Claro que o ICNB ou outro poderia desaconselhar a zona por haver outras participações, para esse local, nesse dia.
Em contrapartida, os montanheiros seriam os vigilantes no terreno que entrariam em contacto com as autoridades, denunciando quaisquer anomalias.
Desta maneira, existiria melhor e mais eficaz vigilância no terreno. Os montanheiros continuariam a fazer as suas actividades, com responsabilidades na prevenção de fogos e, inclusive, na denúncia de outro tipo de infracções.
Sei que esta ideia carece de aprofundado estudo, aperfeiçoamento e, acima de tudo, concertação entre todas as partes envolvidas mas, com boa vontade, empenho e o uso de conhecimentos especializados por parte das entidades competentes, poderemos tornar os nossos magníficos mas sensíveis parques naturais, mais protegidos e mais acessíveis.
Talvez por aproveitarem melhor as oportunidades, ou por uma questão de formação ou ainda, por terem governações mais eficazes, podemos afirmar, utilizando uma analogia futebolística, que alguns países europeus, em matéria de conservação da Natureza e actividades de montanha, jogam na Primeira Liga.
Este, seguramente não é o caso de Portugal! Digo-o com alguma tristeza e desilusão. Apesar de sermos um país evoluído (segundo os nossos governantes), inserido na Comunidade Europeia, a verdade é que nós não jogamos no mesmo campeonato.
Os nossos vizinhos ibéricos, por exemplo. Tenho tido ao longo dos anos, contacto com os “nuestros hermanos”, tanto a nível profissional, como a nível pessoal, e devo dizer que o exemplo mora aqui ao lado.
Por algumas vezes, o Bota Rota deslocou-se a Espanha para visitar as suas áreas protegidas, com o intuito de percorrer alguns dos seus numerosos e magníficos trilhos de montanha à disposição dos caminheiros. Sempre tivemos documentação disponível nos centros interpretativos, grande facilidade em pernoitar, quer em parques de campismo, quer no decurso das caminhadas e, mais importante… liberdade para caminhar! A custo zero!
Há alguns dias, contactamos os serviços do Parque Nacional Peneda – Gerês e, simultaneamente o Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade.
Todos os elementos do Bota Rota, estão minimamente informados sobre as recentes alterações na legislação acerca das nossas áreas protegidas mas, a abordagem foi mais “naif”: Dois dos elementos pediram, a nível particular, às referidas entidades, explicações como se não soubessem de nada.
As respostas não tardaram. Devo reconhecer que, neste aspecto, a coisa funcionou.
Diferentemente de Espanha, o conselho destas duas entidades foi, claramente orientado, para a realização de “percursos de ambiente rural”. Estes percursos não carecem de qualquer tipo de autorização, logo não estão sujeitos à taxa, no valor mínimo de 150.00 €. Por exemplo, foi-nos desaconselhado o “Trilho da Peneda” (um percurso de ambiente natural) que, apesar de ser um trilho homologado, “apresentava alguns problemas de manutenção”.
Eu até reconheço que estes “percursos de ambiente rural” são interessantes, numa perspectiva sócio-cultural, com a família e amigos ou para as pessoas que visitam pela primeira vez o PNPG. O problema é que nós somos caminheiros, montanheiros, etc., etc. Nós queremos mais! E não é por sermos exigentes. Os nossos governantes é que não sabem o que é o montanhismo, o que é trekking. Para eles, os “percursos em ambiente natural”, como eles os classificam, são para as empresas de actividades ao ar livre. Essas empresas também pagam uma taxa para lhes permitir laborar nestas áreas restritas durante o ano, mas também têm lucros. Supostamente, podem pagar. O cidadão comum, que toda a vida caminhou pelas montanhas, os Escuteiros, as associações de desportos de montanha, se não puderem pagar, devem encaminhar as suas actividades para essas empresas, como carneirinhos para o matadouro.
Tenho falado com alguns amigos da blogosfera e sinto que o sentimento generalizado é que, após a famosa manifestação de Dezembro de 2009, as vozes calaram-se, como se a questão estivesse resolvida. Mas não. A Lei só foi temporariamente suspensa e, após um adormecimento de três meses, os nossos legisladores avançaram com uma nova portaria que, de diferente só tem o nome.
Será que somos assim tão poucos? Não temos expressão? Será que somos assim tão benevolentes? Será que, ao contrário dos nossos irmãos de Espanha, não merecemos conhecer? Desfrutar? Preservar?
Bem, quanto a conhecer, desfrutar e preservar, a minha resposta, e certamente, a vossa, só pode ser afirmativa. Temos esse direito e, principalmente, essa responsabilidade.
Para isso, resta-nos lutar pelos nossos direitos. Aos nossos políticos, só lhes peço que sigam os bons exemplos dos países que “jogam na Primeira Liga”. Jorge Sousa
É triste. Triste e revoltante. As aberturas dos noticiários revelam notícias bombásticas de vários e repetidos incêndios nas nossas áreas protegidas. Para além do esforço sobre-humano dos nossos “Soldados da paz”, que lutam com a vida para minorar estas catástrofes, temos a toda a hora, queixas de uns e de outros sobre quem incendeia e sai incólume, sobre a falta de vigilância, a falta de meios e até, a falta de vontade politica.
No meu humilde ponto de vista, acho que os nossos governantes, na sua poltrona, engravatados, não têm a verdadeira noção do que se passa no terreno: “são uns matos que ardem, é preciso ter cuidado com as casas, mas enquanto é mato… ou “bichos”!”
Para eles, existem assuntos mais importantes, que lhes dão mais notoriedade, mais votos.
“O que é preciso são coisas com o “choque tecnológico”!
Essas coisas de ter o mato limpo, são para os particulares. São eles que têm de ter as matas limpas.”
Nas áreas protegidas, o que é preciso é limitar as visitas a zonas, cada vez mais restritas, para as “áreas de ambiente rural”. As “áreas de ambiente natural”, essas o melhor a fazer é, não proibir, mas taxar forte e feio! Assim, as visitas ficarão para alguns malucos endinheirados. Ou então para as empresas de turismo-aventura que também pagam uma licença mas dessas actividades obtêm lucros, onde colocam os seus clientes “ao molho” como carneirinhos, pelo monte acima
Mas nem tudo é bom para os políticos! Às vezes até fazem os seus sacrifícios. Lá interrompem as suas férias e vestem a sua farpela e vão ver o “Teatro de Guerra”. O mato a queimar. Para o efeito, obrigam a preparar uma comissão de recepção, que fica mais preocupada com os ilustres convidados do que com o teatro de operações. Para a comunicação social, dão “umas a abater”, que nem tudo é mau, não é o que parece, o que ardeu, daqui a uns anos, já está recuperado, etc., etc.. Parecem aquelas pessoas que têm uma doença grave, mas que não querem que os vizinhos saibam. Mais tarde, os vizinhos constatam que se pode morrer com boa saúde! Assim é o nosso País…
Jorge Sousa